Isto não é um Diário – Zygmunt Bauman

Resultado de imagem para baumanZygmunt Bauman é um sociólogo polonês. Emigrou para diversos países,  Canadá, Estados Unidos, Austrália e, por fim, Grã-Bretanha, onde em 1971 tornou-se professor titular de sociologia da Universidade de Leeds. Um facto interessante sobre este autor é que introduziu o conceito de sociedade líquida: Sociedade líquida é a sociedade atual, uma sociedade não pensa a longo-prazo, não consegue ter desejos e projetos de longa duração, aplicando-se isto também à área das relações. A noção de “líquido” vem do facto de dizer que tudo é de pouca duração, como algo que escorre  pelo vão dos dedos.

Bauman é também autor do livro Isto não é um Diário, um livro num formato diferente de tudo aquilo que escreve; e é livro sobre o qual vos venho falar hoje.

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Este livro está escrito como um diário, no entanto isto não é um diário pessoal ou autobiográfico. No livro são escritas entradas no diário durante um período de 6 meses, onde Bauman escreve e reflete sobre diversos assuntos que estão a acontecer no mundo entre setembro de 2010 e março de 2011.

Enquanto o tempo avança Bauman vai comentando notícias que vê, refletindo sobre as mesmas e dando a sua opinião. Assim, este não é é um livro académico, com conceitos e discussões académicas; é um livro em que o autor apenas escreve sobre temas gerais e abrangentes, refletindo e dando a sua opinião.

Bauman foca-se em acontecimentos relevantes e mediáticos, como a crise do sector público na Grécia e na Irlanda, as revoltas populares no Norte de África. Assim, vão surgindo diversos temas da sociedade contemporânea, como  a economia e política mundial, a democracia e questões relativas aos Estados Unidos, por exemplo o dilema eleitoral de Barack Obama; à França, com a questão da perseguição aos ciganos; e à Itália, em que fala de Berlusconi. Para além deste tipo de assuntos, fala também da fragilidade dos laços afetivos, do consumo, da juventude atual e de novas realidades, como a Internet. Fala sobre tudo aquilo que lê nos jornais, que vê na televisão e daquilo que o rodeia.

Este é um livro essencialmente sobre as suas reflexões acerca dos assuntos. Escreve à medida que pensa, inclusive numa parte do livro diz mesmo que não consegue pensar sem escrever: “Sinto-me incapaz de pensar sem escrever. Imagino que eu seja primeiro um leitor e depois um escritor – pedaços, retalhos, fatias e frações de pensamentos em luta para nascer (…)” (p.8)

Um facto curioso, é que faz algumas referências a Saramago, autor que Bauman diz ter descoberto há pouco temo, e utiliza algumas citações deste autor português. No início do livro, quando fala Sobre o sentido e a falta de sentido de se fazer um diário”, curiosamente, apresenta uma citação de Saramago:

“Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobriografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel.” (p.10)

É, de facto, apaixonado pela escrita, demonstrando a sua grande paixão pela escrita dizendo que “Um dia sem escrita parece um dia perdido ou criminosamente abortado, um dever omitido, uma vocação traída.” (p.8)
Tem opiniões muito interessantes sobre os diversos assuntos e faz com que o leitor tenha interesse em pesquisar e refletir sobre os assuntos que expõe, sendo ainda mais interessante por se tratarem de temas que nos rodeiam e que fazem parte da sociedade contemporânea.

Perante este livro, Steven Poole, jornalista do The Guardian, disse que: “Se Bauman tivesse postado os comentários deste livro na internet, teria sido o melhor blog do mundo.”

Zygmunt Bauman tem uma capacidade extraordinária e perspicaz de refletir e de apresentar diversos temas e problemas contemporâneos, adicionando o facto de a sua escrita ser fluída e acessível a qualquer leitor. Sendo um livro tão acessível, escrito de forma interessante, e de modo a estimular a reflexão de quem o lê, faz com que quem o lê pense, pesquise e reflita também sobre estes temas.
Deste modo, se tivesse sido escrito na Internet, em forma de blog, teria um alcance muito maior, e teria sido o melhor blog do mundo. Melhor blog do mundo, pois seria um blog atual, repleto de reflexões e opiniões interessantíssimas, do ponto de vista sociológico, e que instigariam os seus leitores a fazerem também as suas próprias reflexões. Seria também um modo de discussão dos diversos assuntos. No entanto, Poole preferiu que isto não tivesse acontecido, pelo que termina o comentário dizendo: “Mas fico feliz que ele não o tenha feito.” 

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O Novo Espaço Público

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Daniel Innerarity no seu livro “O Novo Espaço Público”, tem como principal propósito examinar a ideia de espaço público e identificar as suas transformações na sociedade atual.
Esta obra promove uma reflexão sobre qual a melhor forma de ajustar o poder político e os ideais de democracia, e da vida coletiva, às condições actuais de governo e de funcionamento da sociedade. Deste modo, vai analisar a atual situação da vida pública, apresentando questões relativas à identidade e às diferenças, e como a democracia se pode adaptar a estas. Assim, diz que é necessário, e propõe, uma mudança da política e do poder político, de forma a que este se ajuste às novas características da sociedade.


Desde a antiguidade clássica que existe uma preocupação em traçar limites e fronteiras entre o público e o privado. O espaço público, normalmente entendido como um espaço de relações impessoais, meramente instrumentais do mercado e do Estado; e o espaço privado, como um espaço de intimidade e onde vigoram as emoções.
No entanto, esta forma de entender e distinguir estes dois conceitos tem vindo a ser alterada pelas transformações da vida política e as alterações na esfera privada.

As questões relacionadas com a identidade estão presentes em todos os aspetos da vida contemporânea. No entanto, de acordo com o liberalismo clássico, a identidade não fazia parte do cenário político. “O cidadão era, como o sujeito moderno, um ser abstrato e sem corpo” (p.31) Nesta altura, os seus assuntos pessoais não influenciavam, nem eram importantes para a sua atuação política. Hoje em dia, essa situação modificou-se. Innerarity dá, inclusive, o exemplo das guerras e diz que até elas se privatizaram: “(…) não só determinados serviços como também a guerra, por exemplo, se privatizou – do que é muito eloquente o novo terrorismo, que não está vinculado à lógica dos estados.” (p.31)

Com isto, não só há uma alteração no espaço público, como também no espaço privado, sendo que não é fácil determinar se é o espaço privado que invade o espaço público, ou o inverso.
Tudo isto faz com que surja o fenómeno da “personalização do político”, ou seja, as personagens políticas sobrepõem-se aos temas políticos, e estes últimos são vistos como questões pessoais. “Os temas políticos transformam-se em assuntos de imagem, sentimentos e dramas pessoais; o principal instrumento da ação política é a emoção, a simulação da autenticidade e os sentimentos pessoais comunicados pelos que detêm a autoridade” (p.33)
Estas convocações emocionais são muito fortes em estados globalizados e unificados pelos meios de comunicação. Innerarity diz que vivemos numa “sociedade de sensações”, uma sociedade sensacionalista que gosta de especular e dramatizar acontecimentos. Innerarity diz mesmo que “O espaço emocional é agora o espaço por excelência, o substituto daquele que nos imaginávamos orientado pela confrontação ideológica e articulado pelas correspondentes instituições.” (p.40)

Outra questão que se verifica nas sociedades contemporâneas é a crise da representação política. Hoje em dia, as pessoas deixaram de se sentir representadas pela política, pois a democracia é vista, pela maioria, como uma mera protecção de interesses privados.
Já não existe uma sociedade em que os indivíduos se vejam e representem como uma unidade – os indivíduos agrupam-se por interesses e situações específicas. “(…) aparece a sociedade entendida como um conjunto de minorias e o governo como uma organização não-governamental que se encarrega de atender diretamente os seus pedidos.” (p.55)
A crise da representação ocorre pelo facto de que quando se elege alguém, pressupõe-se que esse alguém represente não só aqueles que o elegeram, o grupo a que pertence e que partilha os seus interesses, mas sim o todo e o interesse geral. No entanto, a solução não é clara.“Se existe representação, é porque o povo é uma realidade suficientemente complexa  para que nenhuma das suas manifestações (…) o possa resumir de maneira satisfatória”. (p.75)

Outra questão importante, surge do pluralismo e da diversidade das sociedades contemporâneas. Tradicionalmente, a antiga distinção entre espaço público e espaço privado via o espaço público como algo que funciona através da renúncia das identidades por parte dos indivíduos, através da abstração pública da identidade. O grande problema desta visão é que esta não tem capacidade para gerir a diversidade e o pluralismo das sociedades atuais.
É fundamental reconhecer as diferenças num contexto de igualdade, sem que umas se sobreponham às outras, e sem totalizar nenhum ponto de vista – só assim chegaremos ao conceito de humanidade.

Innerarity fala também sobre o papel dos media, e sobre a forma como estes manipulam a nossa visão do mundo. Diz estarmos perante uma realidade mediatizada pelos meios de comunicação.
Para os media, os assuntos atuais, escandalosos e conflituosos são, muitas vezes, mais importantes do que a verdade. O que nos leva a pensar que vivemos num mundo “em segunda mão”, isto é, a ideia que temos do mundo não é completamente isenta, visto que os media constituem a mediação universal, e fornecem a matéria da nossa realidade.
Innerarity fala também daforma como estes se mostram como “horizonte mitológico”. As notícias funcionam como mitos: “há sempre um confronto sobre o qual tomamos partido, uma catástrofe que nos comove, um escândalo a suscitar a nossa indignação, algum acontecimento cultural para nos instruir, um tempo dedicado à informação dita desportiva e uma ou outra notícia de valor humano para alimentar os nossos melhores sentimentos.” (p. 91). Tal como a mitologia, os media recorrem à redundância e repetição; transmitem mais entretenimento do que conhecimento.

As sociedades e, em particular, as cidades sempre sofreram de críticas por alguma mudança e alguma perda – no século XIX era criticada a decadência dos costumes, hoje é a privatização do espaço público e a ausência de espírito de cidadania.
As nossas sociedades são complexas, e dessa complexidade advêm problemas como “os da multiculturalidade, da sociedade aberta, da mobilidade social, da possibilidade de fazer valer pontos de vista marginais ou de incluir o excluído, bem como todos os queixumes suscitados pela complexidade e pelo nostálgico desejo de clareza” (p.147)
Nestes tempos, nas sociedades contemporâneas e multiculturais, caracterizadas por uma grande heterogeneidade, é necessário proteger as diferenças culturais que não eram respeitadas no passado. Assim, as sociedades contemporâneas deixam de ignorar, como se fazia anteriormente, as diferenças que nelas existem, perdendo “aquela inocente homogeneidade que se haviam revestido noutras épocas” (p.166)

O autor faz também uma reflexão sobre o conceito de «bem comum», muitas vezes utilizado para justificar interesses individuais. “Se uma coisa é boa deve sê-lo para alguém concreto e não para um destinatário etéreo, indeterminado, obrigado a compartilhá-lo; se for realmente de todos, já não será tão bom”. (p.198)
Atingir o bem comum é algo muito improvável, e quem apela ao bem comum para resolver um conflito de interesses é “ingénuo ou é cínico”. O apelo ao bem comum é muitas vezes utilizado para neutralizar um conflito de interesses.

O espaço público pressupõe também uma ação comum e, por isso, uma ideia de responsabilidade comum. No entanto, a questão da responsabilidade no espaço comum é simples. “A dificuldade de articular publicamente a responsabilidade está ligada à dificuldade política de governar uma sociedade complexa.” (p.226)
Nas sociedades contemporâneas, o conceito de responsabilidade deve estar associado às consequências e efeitos das ações das sociedades, tendo por base a sustentabilidade e previsão do futuro e consequências a médio e longo prazo.

Com todas estas mudanças, o estado já não tem condições para tomar decisões soberanas, assim o estado deverá tornar-se mais cooperativo se não quiser perder a sua importância. “O governo cooperativo é tanto mais importante quanto mais heterogénea é a sociedade e mais contraditórios são os interesses nela representados, quanto mais pluralista é a determinação do seu bem comum.” (p.249)
Segundo Innerarity é urgente “cosmopolitizar a globalização”. É necessário politizar, isto é, deixar de entregar à “naturalidade” questões sobre as quais é urgente discutir e chegar a acordo.

É necessário mudar e abandonar o passado. É necessário tomarmos consciência, e que o poder político se ajuste, a esta sociedade contemporânea, complexa e multicultural. Pois, segundo Innerarity: “Quando nós, os seres humanos, permanecemos agarrados a esquemas de pensamento e a formas de atuar próprias do passado, ficamos incapazes de compreender em que processos de mudança estamos envolvidos.” (p.281)

Um Mundo sem Regras

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O mundo atual apresenta sintomas de desregramento, tanto intelectual, económico-financeiro, como climático. Amin Maalouf, no seu livro “Mundo sem Regras”, chama a atenção para os grandes problemas que enfrentamos a nível civilizacional, económico-financeiro, climático e até ético, e vê estes desafios como algo que nos pode unir, sendo estes problemas que nos afetam a todos.

O desregramento intelectual advém de questões identitárias que não contribuem para uma fácil coexistência das diversas culturas; o desregramento climático resulta de uma irresponsabilidade contínua; e o desregramento económico-financeiro resulta (e tem também um papel fundamental) de uma perturbação do sistema de valores da humanidade, isto porque “A sua relação com o dinheiro e com a maneira de o ganhar tornou-se obscena (…) Será necessário acrescentar com todas as letras que este desregramento financeiro é também, e talvez acima de tudo, o sintoma de um desregramento na nossa escala de valores?” (p.174-175)

O autor explora os motivos que nos levaram a este “Mundo sem Regras”, e quais as possíveis soluções para resolver estes problemas. No seu ponto de vista, todo este desregramento do mundo deve-se a dois conjuntos culturais:  o Ocidente e o mundo árabe. Acusa o primeiro de não seguir os seus próprios valores, e o segundo de estar fechado num impasse histórico.

“Penso que estas civilizações atingiram os seus limites; que só trazem ao mundo as suas crispações destruidoras; que estão moralmente em falência, como o estão, aliás, todas as civilizações particulares que ainda dividem a humanidade; e que chegou o momento de as transcender. Ou nós conseguimos construir neste século uma civilização comum com a qual cada um possa identificar-se, unificada pelos mesmos valores universais, guiada por uma fé poderosa da aventura humana e enriquecida com todas as nossas diversidades culturais, ou perecemos juntos numa barbárie comum.” (p.31)

De acordo com o autor, o Ocidente mostra-se pouco fiel aos seus valores morais, pois não os segue, nem foi capaz de os difundir eficazmente por não lhes ser conveniente em certas situações. Por outro lado, temos o mundo muçulmano, desconfiado dos modos de vida do ocidente e fechado num impasse histórico.

“Não há qualquer dúvida de que este impasse histórico do mundo muçulmano é um dos sintomas mais manifestos desta regressão para a qual toda a humanidade se dirige de olhos vendados.” (p.229) No entanto, parte da culpa é também dos ocidentais pela forma como geriram as suas relações com os outros povos ao longo da história.

“O que eu censuro hoje no mundo árabe é a indigência da sua consciência moral; o que eu censuro ao Ocidente é a sua propensão para transformar a sua consciência moral num instrumento de dominação” (p.32)

No entanto, o autor não deixa de reconhecer o grande legado que o Ocidente deixou para a humanidade: “A ciência do Ocidente tornou-se a Ciência; a sua medicina tornou-se a Medicina; a sua filosofia, a Filosofia (…)” (p.36) E, acrescenta ainda que, mesmo quando se discute sobre a dominação do Ocidente, fá-lo-se recorrendo a instrumentos materiais e intelectuais inventados e difundidos pelo Ocidente para o todo o mundo.

No final da Guerra Fria, o Ocidente detinha superioridade militar, económica e moral, o que, segundo Maalouf, lhe deveria ter permitido escapar ao subdesenvolvimento e à tirania. Assim, “parecia sensato prever que o recurso às armas seria muito excepcional e que bastaria ao Ocidente fazer valer a excelência do seu sistema económico e do seu modelo de sociedade para preservar a supremacia. Mas foi o inverso que se verificou (…) e o recurso às armas banalizou-se.” (p.49)

Para além disso, o autor diz que o principal erro das potências europeias, como já foi referido, foi quererem impor os seus valores ao resto do mundo, mas sem os respeitarem nas suas relações com os povos dominados. Um desses valores é a universalidade, isto é – a humanidade, apesar de toda a sua diversidade, é apenas uma. “Nenhum povo na Terra é feito para a escravatura, para a tirania, para o arbitrário, para a ignorância, para o obscurantismo, nem para a submissão de mulheres. Cada vez que negligenciamos esta verdade de base, traímos a humanidade e traímo-nos a nós mesmos.” (p.60-61) E, ainda, acusa a Europa de se justificar e desculpar com a ideia de que os outros não estariam prontos para adoptar os seus princípios fundamentais.

Para além disso o autor coloca uma questão que considera crucial: “as potências ocidentais terão realmente tentado implantar os seus valores nas suas antigas possessões?” (p.62) Ao que responde que não. Aliás, diz que as potências ocidentais reprimiam constantemente os “indígenas” sempre que estes reivindicassem valores como a liberdade, igualdade, democracia, espírito de iniciativa ou o estado de direito.

“A civilização ocidental foi, mais do que qualquer outra, criadora de valores universais; mas mostrou-se incapaz de os transmitir convenientemente. Uma falha cujo preço é pago por toda a humanidade.” (p.53)

Globalização não é sinónimo de uniformização, e para que possamos evoluir devemos lutar por um mundo ” (…) onde todos os dias se respeita um pouco melhor a diversidade humana, onde qualquer pessoa pode exprimir-se na língua à sua escolha, professar tranquilamente as suas crenças e assumir serenamente as suas origens sem ser vítima de hostilidade ou de difamação, quer por parte das autoridades quer por parte da população, é um mundo que avança, que progride, que se eleva.” (p.65-66)
Inversamente, vivemos num mundo onde prevalecem pouco respeito pela identidade do outro: ” (…) quando todos os dias se torna um pouco mais difícil alguém ser serenamente ele mesmo, praticar livremente a sua língua ou a sua fé, como não falar de regressão?” (p.66)

O autor chama a atenção para os progressos deste século no campo material e intelectual, mas também para um século que conheceu iniciativas totalitárias e produção de armas poderosíssimas, capazes de destruir em massa. Será que progredimos apenas no plano material e não no plano moral? Maalouf diz que é inegável que se avançou em todos os planos, porém não ao mesmo ritmo: “Enquanto na aquisição de conhecimentos, no desenvolvimento das ciências, na sua adaptação tecnológica civil ou militar, na produção e na difusão das riquezas, a evolução terá sido ascendente e acelerada, a das mentalidades dos comportamentos humanos terá sido errática e, no seu conjunto, inadequada, tragicamente inadequada.” (p.71)

O autor defende que a resposta para a crise moral que se vive no nosso tempo não está no passado, mas sim num futuro que necessita de ser construído. Isto porque a história não é, de todo, exemplar no que diz respeito às relações entre as nações e à gestão de recursos no planeta: ” (…) a História não é de modo algum exemplar, dado que esta é pontuada por guerras devastadoras, por crimes contra a dignidade humana, por enormes desperdícios e por trágicos desvarios – o que nos conduziu ao marasmo de hoje.” (p.179)

Por fim, Maalouf diz que neste século teremos de escolher entre duas visões para o futuro do mundo:

  • Primeira: “uma humanidade partilhada por tribos planetárias que se combatem, que se odeiam, mas que, sob o efeito da globalização, se alimentam cada vez mais do mesmo caldo cultural indiferenciado.” (p.247)
  • Segunda (visão otimista): “uma humanidade consciente o seu destino comum e reunida por isso em torno dos mesmos valores essenciais, mas continuando a desenvolver, mais do que nunca, as expressões culturais mais diversas, mais expansivas, preservando todas as suas línguas, as suas tradições artísticas, as suas técnicas, a sua sensibilidade, a sua memória, o seu saber.” (p.247)

Segundo o autor, chegámos a um ponto em que só temos duas vias possíveis: morremos juntos ou salvamo-nos juntos. Para seguir a primeira via, diz que basta continuarmos com o comodismo e a vaguear ao sabor dos acontecimentos. Já a segunda exige abandonar o comodismo e implica uma mudança, ao que questiona: “seremos nós capazes disso?” (p.248)

Nobreza de Espírito

Resultado de imagemRob Riemen é um filósofo, fundador e director do Instituto Nexus, um centro internacional sedeado na Holanda dedicado à reflexão intelectual e à inspiração do debate cultural e filosófico ocidental. É autor da obra “Nobreza de Espírito”, onde realiza uma forte reflexão sobre as questões essenciais da sociedade, como a liberdade e a dignidade humana. O livro está dividido em quatro partes, em que examina questões artísticas, culturais, literárias e intelectuais.

Para Riemen a nobreza de espírito é a essência de um mundo civilizado, sem a qual cultura desvanece-se. No século XXI, num momento em que a dignidade humana e a liberdade estão em perigo, este conceito raramente é tido em conta. Mas o que significa para Riemen “Nobreza de Espírito”? Este conceito é explicado no início da obra:

“Nobreza de espírito é o grande ideal! É a realização da verdadeira liberdade, e não pode haver democracia, mundo livre, sem este alicerce moral. A obra-prima de Whitman, a sua visão global, é exatamente acerca disto: a vida com uma demanda da verdade, do amor, da beleza, do bem, e da liberdade; a vida como a arte de nos tornarmos humanos através do culto da alma humana. Tudo isto se exprime em «nobreza de espírito»: a encarnação da dignidade humana.” (p.29)

Segundo Riemen a Nobreza de Espírito é a busca de valores como a liberdade, dignidade e a verdade, que são essenciais para o progresso da humanidade. Explora a tradição a partir de Sócrates, Espinosa, Whitman, Goethe e Thoman Mann, todos eles indivíduos que se recusaram a ir contra os seus ideais, tendo sido movidos pela busca deste “ideal esquecido”.

Aqui a noção de nobreza não reside na ideia de uma nobreza que se obtém através do berço e do privilégio, mas sim através da educação e da cultura. Como dizia Guillaume Bouchet: “A verdadeira nobreza adquire-se com a vida e não com o nascimento”.
Ser nobre advém da capacidade da discussão de ideias, de conhecimentos literários e filosóficos, da reflexão e do pensamento. A nobreza é daqueles que procuram a verdade, a beleza e o bem. Citando Gracian: “«O homem nasceu bárbaro; adquirindo cultura é salvo de se tornar um bruto. Portanto, a cultura faz o homem, e quanto maior for a sua cultura maior será o indivíduo.»” (p.101)

A nobreza de espírito e de carácter, têm sido um ideal esquecido e dispensável, algo que Riemen critica uma vez que “O mundo sempre em mudança exige constantemente novas formas para a revelação da verdade. Outra palavra para essas formas é “cultura”. A aniquilação da cultura significa aniquilação da verdade. E aniquilar a verdade é nada menos do que privar o indivíduo da sua dignidade.” (p.62)

Riemen alerta para o facto de que a nobreza de espírito não se encontrar na política, nas igrejas, nem nos media: “Não a procurem no mundo dos media, no mundo da política, no mundo do ruído. O espírito nunca esteve aí. Não vão à academia. Expulsaram o espírito. E nas igrejas? Há uma razão que soa a oco. No mundo da fama? Aí perdíamo-nos.” (p.121-122)
Tal como diz Steiner no prefácio da obra: “a democratização das políticas atuais, o nivelamento igualitário da educação, e o lugar dominante dos meios de comunicação de massas militam contra esse elitismo guardado na fórmula de Thomas Mann: Nobreza de Espírito” (p.13) 

“O dinheiro secundarizou todos os valores, tornámo-nos obcecados por ele.” (p.86) O autor reforça estes pontos e tenta relembrar e consciencializar os leitores para os ideais clássicos, de modo a preservar os altos valores da civilização.

Thomas Mann e Riemen acreditam que a apenas “a arte, a beleza e as histórias podem libertar a alma humana do medo e do ódio e desse modo conduzir o indivíduo mais longe na jornada através da vida.” (p.71)

Riemen à semelhança de Sócrates, defende que os filósofos devem tornar-se soberanos, e que os líderes devem regressar aos ideais filosóficos, de modo a que a nobreza seja recuperada. Acredita também na ideia de Sócrates de que a sabedoria, coragem e moderação devem ser imperativas numa sociedade justa.

No final, Riemen apela aos leitores que tenham coragem para combater o terror, o ódio e a ignorância que conspiram contra a humanidade e que vão contra o ideal da Nobreza de Espírito.

Empresas cidadãs

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“Se a empresa quer reencontrar a sua dimensão cidadã, ela deve desenvolver nela própria uma cultura política no sentido pleno do termo. Deve inserir a sua acção na vida da cidade e participar nos debates sobre o Bem comum e sobre as orientações para o futuro.” (Woot, 2013, p. 111). (trad. Inglesa Rethinking the Enterprise)

Woot explora o papel determinante das organizações na transformação do sistema económico. Ele defende que a criatividade e a inovação são respostas para os desafios que o mundo e a sociedade enfrentam, sendo que considera o desenvolvimento económico uma consequência da inovação.

Sendo as empresas o principal agente da economia e da criatividade técnica, primeiramente acreditava-se que as suas ações automaticamente serviriam um bem comum através das características do mercado e da famosa “mão invisível”. Nos tempos que correm esta questão é naturalmente questionável. O sistema económico tem atualmente grande autonomia e poder e atua, na maior parte das vezes, de acordo com os seus benefícios, tendo sempre em vista os lucros, a competitividade e a corrida desenfreada para obter uma melhor posição no mercado.

AssimResultado de imagem, as empresas são impulsionadas a adotar novas estratégias e comportamentos no que diz respeito a questões ligadas à ética e aos problemas da sociedade. Estas questões influenciam, e em muitos casos impõem, mudanças nas dinâmicas de mercado.

Contudo, não se deve pensar a sustentabilidade apenas como algo restrito à ações ambientais, tal como a responsabilidade social não se limita apenas a ações e a projetos sociais. A responsabilidade social significa agir em resposta das necessidades da sociedade. Ou seja, criar valor que se reflita em benefícios, não só para a própria organização, mas também que tenha um impacto positivo no meio ambiente e na sociedade. Muitas empresas são atraídas pelas vantagens que a adoção de práticas socialmente responsáveis proporcionam como a valorização da imagem institucional e da marca e a consequente maior fidelização do consumidor.

“Se uma empresa quer criar ações com significado, se quer transformar a sua criatividade económica em progresso (…), a dimensão ética é tão essencial como a dimensão política no que diz respeito à tomada de decisões e comportamentos”. (p.64)

Porém, é necessário ter cuidado quando se comunicam políticas de Responsabilidade Social, isto porque o efeito pode ser contrário àquilo que se pretende, transmitindo uma ideia de que a empresa se move apenas pelas consequências favoráveis que advém dessas ações. Assim, torna-se necessário garantir que as políticas de Responsabilidade Social comunicadas pelas empresas são verdadeiras e estão de acordo com a sua identidade e ações no geral.

Na sua obra Woot apresenta um empreendedor como empreendedor, criador de progresso e não apenas de lucro; o líder, enquanto criativo e criador de uma consciência coletiva; e os empresários enquanto simples cidadãos. Defende que as empresas não devem ser um fim em si mesmas, mas devem sim, servir o interesse público.

Em suma, as ações económicas baseadas em pressupostos éticos e políticos são cada vez mais essenciais. As empresas devem tornar-se, assim, empresas cidadãs, procurando contribuir para um bem comum. Deste modo, a responsabilidade social corporativa torna-se num elemento-chave para o desenvolvimento dos negócios e para estabelecer relações positivas e de confiança para com os stakeholders das organizações.

A Ideia da Europa

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Em “Ideia da Europa” George Steiner incentiva os leitores a refletirem sobre a Europa, sobre a sua identidade e o seu futuro.

O autor vê a cultura e o conhecimento como algo vital para a qualidade de vida humana. No entanto, a fundação da União Europeia baseou-se fundamentalmente em critérios económicos, tendo a cultura sido secundarizada.

Steiner considera a matemática (tal como o pensamento e a música) uma das três atividades que definem e dignificam homens e mulheres, e diz que a Europa se tem distinguido nestes dois domínios, criando um precioso depósito de conhecimento e beleza para toda a humanidade.

Steiner explica a ideia de Europa a partir da escala humana, da sua geografia, de filósofos, artistas e professores, sempre em movimento construindo passo a passo a nossa cultura comum. Define, também, cinco axiomas que distinguem a identidade europeia das restantes (principalmente dos Estados Unidos):

  1. o café;
  2.  a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia;
  3. as ruas e praças nomeadas segundo escritores, artistas, cientistas do passado;
  4. a nossa descendência dupla de Atenas e de Jerusalém;
  5. uma consciência própria escatológica.

1. George Steiner dá grande importância aos cafés nas cidades europeias, pois vê estes locais como locais de troca de ideias, de produção e partilha de conhecimento, “de entrevistas, conspirações, debates intelectuais, mexericos” (p.26). Os cafés são vistos como centros sociais e culturais, que refletem o espírito urbano e uma cultura europeia, que não existe na América, na Ásia, nem na Austrália. “Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia da Europa»” (p.26) A diferença entre a América do Norte principalmente, bem como a África e a Austrália, é radical. “Um europeu culto é apanhado na teia de um in memoriam simultamneamente luminoso e sufocante. É precisamente esta teia que a América do Norte repudia.” (p. 35)

2. “A Europa foi e é percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos.” (p.29). Neste segundo axioma diz que a Europa foi humanizada à medida de curtas travessias pedestres – tem uma escala humana, ao contrário da América, África, Ásia e Oceânia.

3. Na Europa, os nomes atribuídos às ruas, praças, locais são os nomes de personalidades que se destacaram no passado, fazendo com que cada recanto tenha um peso histórico: “Cidades como Paris, Milão, Florença, Francoforte, Weimar, Viena, Praga ou S. Petersburgo são crónicas vivas. Ler as respectivas placas toponímicas é folhear um passado presente.” (p.33). Steiner tende a fazer sempre comparações, principalmente com os Estados Unidos em que o contraste é enorme: “As avenidas, calçadas e ruas americanas são simplesmente numeradas ou, na melhor das hipóteses, como em Washington, conhecidas pela sua orientação, sendo o número seguido de «North» ou «West». E deixa esta deliciosa ironia: os automóveis não têm tempo de considerar uma Rue Nerval ou um Largo Copernicus.” (p.33)

4. “Ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.” (p. 36) Atenas dá-nos o vocabulário das nossas teorias, dos conflitos políticos e sociais, da arquitetura, dos modelos estéticos e das ciências naturais. O legado de Jesursalém não é menos importante, aliás Steiner diz que “Não existe praticamente nó na textura da existência ocidental, da consciência e da consciência de si próprios dos homens e das mulheres ocidentais que não tenha sido tocada pela herança do hebreu” (p.40).

5.  No quinto axioma insere a ideia de uma consciência de uma finitude, isto é, a previsão e sensação de um fim, presente em diversas profecias e numerologias que procuram fixar esse mesmo fim: “Muito depois daquilo que os historiadores denominam como «o pânico do ano mil», as profecias de condenação escatológica e as numerologias que procuram fixar a sua data povoam a imaginação popular europeia.” (p.43)

É através destes cinco axiomas que George Steiner define os traços distintivos da Europa, cabendo a cada um de nós pensar e refletir sobre os mesmos, bem como os problemas que a Europa enfrenta atualmente e que ameaçam o seu legado. Conhecer o passado é indispensável para viver o presente e projetar um futuro.

Segundo Steiner é preciso refletir sobre os problemas e sobre o futuro da Europa. “ É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e de Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que a vida não reflectida não é efectivamente digna de ser vivida.” (p.55) Uma vida vivida sem reflexões, ponderações e questionamentos é uma vida dependente das escolhas e ações de outros e, portanto, com pouco valor para a pessoa que a vive.

George Steiner chama a atenção para a “americanização” do mundo e problemas, como a saída dos talentos e jovens da Europa face às ofertas dos Estados Unidos.

Assim, quer apontar soluções para que “a «ideia da Europa» não tombe naquele grande museu de sonhos passados a que chamamos História.” (p.48)

As Relações Públicas na geração de “Polegarzinha”

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A evolução e as novas tecnologias, que temos hoje em dia ao nosso dispor, refletem-se nesta nova geração, que tem meios e modos de acesso à informação e comunicação completamente diferentes das gerações anteriores.

Face a esta nova geração, registam-se mudanças no mundo, e a área da comunicação não é excepção.

Michel Serres descreve na sua obra “Polegarzinha” esta nova geração como “uma nova forma de viver em harmonia, de pensar as instituições, de ser e de saber”, abrangendo temas como a interação, a educação e a vida em comunidade.

Segundo o autor, esta é uma nova geração que convive e já depende diariamente dos novos dispostitivos de comunicação e informação. É uma geração completamente imersa e dependente das novas tecnologias e que vive e pensa através dos ecrãs: “A Polegarzinha abre o seu computador. Mesmo sem se lembrar da lenda, ela considera ter a própria cabeça nas mãos e à sua frente, bem cheia, haja vista a quantidade enorme de informações disponíveis…” (p.35)

O termo “Polegarzinha” vem do facto de esta nova geração utilizar os polegares para escrever nos telemóveis. O autor, na primeira parte do livro, faz comparações em relação as vivências das gerações anteriores e desta geração, sendo que chega à conclusão que esta é uma geração completamente diferente, como que um diferente ser humano: “Essas crianças, então habitam o virtual. As ciências cognitivas mostram que o uso da internet, a leitura ou escrita de mensagens com o polegar, a consulta à Wikipedia ou ao Facebook não ativam os meus neuroónios nem as mesmas zonas corticais que o uso do livro, do quadro-negro ou do caderno. (…) Não conhecem, não integralizam nem sintetizam da mesma forma que nós, seus antepassados. Não têm mais a mesma cabeça.” (p. 19)

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Michael Serres foca também o desinteresse que existe muitas vezes pelo conhecimento, e diz que esse deriva da grande quantidade oferta do saber. Antes, era maior o esforço para se obter uma determinada informação, e todo esse trabalho e esforço faziam dessa informação e desse saber algo valioso e raro. Tal não acontece hoje em dia, pois o saber e o conhecimento são tidos como algo adquirido, que se carrega a toda a hora dentro do bolso e à distância de um clique.

Esta é de facto um nova geração, e com ela surgem novos hábitos e comportamentos para os quais as Relações Públicas devem estar preparadas para ajustarem a sua comunicação a estes públicos.

É preciso ter em atenção que esta é uma geração que nasceu num mundo em transformação. A Internet, redes sociais e aparelhos móveis são coisas com que lidam desde sempre.

Esta geração caracteriza-se por estar sempre conectada, por procurarem sempre informação de imediata e de fácil acesso, pela sua preferência pelos computadores em detrimento dos livros, dos e-mails em detrimento das cartas, do digitar em vez de escrever. Os hábitos de partilha também são diferentes, pois estão habituados a partilhar os seus pensamentos, hábitos, dados e fotos.

Em termos de mercado, esta é uma geração criadora de tendências. Face a isto, o mercado tem que se ajustar. Enquanto a geração anterior foi fortemente influenciada e induzida pelos meios de massa, esta nova geração cresceu a navegar pela Internet.

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Deste modo, o consumo acontece de forma diferente e as Relações Públicas e os Departamentos de Marketing precisam de adaptar-se a esta nova realidade de modo a comunicarem eficiente e eficazmente com estes públicos.

Se antes os anúncios de TV pareciam a melhor aposta, hoje em dia é necessário dar prioridade ao marketing digital. Isto porque, esta nova geração não quer apenas comprar – esse tipo consumo não faz sentido para eles.

É uma geração que procura envolver-se nas ações das marcas. Deste modo, as marcas devem priorizar a interação, a transparência, a proximidade e o envolvimento como valores-chave para atrair e conseguir a atenção deste público.